Gentileza – ainda – faz bem

Balanço desgovernado, freadas bruscas. Inclinações simultâneas de corpos. Curvas para a direita – todos para a esquerda, curvas para a esquerda – todos para a direita. Ônibus lotado. Um dia [mais um] na vida de muitos passageiros, acostumados com a corriqueira viagem em sentidos diversos: casa-trabalho, trabalho-casa. Encontros-compras, compras-encontros.

 

Milagrosamente sentada, ali, depois da primeira porta de desembarque e no assento ao lado do corredor, eu degustava as conversas e os cochichos alheios, o barulho da catraca, e o “Piiii” do cartão – debitando as passagens dos usuários aglomerados dentro do veículo.

 

Do jeito que estava, quem ficou de pé não necessitava de apoio. Não havia espaço para onde cair e, mesmo que alguém gasto e perturbado quisesse cometer tal ato, não o conseguiria.

 

coracao_vivo

Não sabia [eu] que ainda existiam pessoas gentis. Poxa, onde se encondem da fadiga diária? Talvez elas ocultam-se em janelas de tórax e cortinas de artérias. Ficam lá no fundo, presas e salvas da hostilidade imposta pela rotina. Pelo stress. Tampouco desconfiei que presenciaria tamanha façanha. No meu mundo, mulheres e gestantes ainda têm a preferência. Mas não naquele mundo. Ali não. Nada de atenção para idosos e crianças. A preferência fazia-se da força, da agilidade. Quem subisse primeiro os degraus metálicos, sentava.

 

Assim, homens ocupavam lugares confortáveis, em meio a mulheres se equilibrando e idosos recostados em portas. Os poucos preferenciais que sentavam, amarguravam-se com a cena que presenciavam.

 

Próximo ponto, porta de trás abre. Um carrinho de bebê é colocado – acolhendo um bebê. Uma jovem segura com força o carrinho e, na outra mão, 3 sacolas de plásticos (aquelas de supermercado). A gentileza brotou. Um homem levantou e esforçou-se para abrir um pequeno espaço. Fez a moça sentar. Segurou-lhe as sacolas e ajeito-lhe o carrinho. Sem pedir nada em troca. Sem pedir autorização. Apenas o fez.

 

Aparência cansada, como se tivesse trabalho duramente o dia todo, o homem não deu-se por vencido. Guiou a moça até sua despedida do ônibus abarrotado de gente, e entregou-lhe as sacolas. Silêncio. Ele não matinha nenhum ar de superior, muito menos de orgulho. Apenas demostrava ter feito o que lhe era obrigação. Ora, não fizeste mais que a obrigação? Nos dias de hoje, admiro a gentileza alheia.

 

3 respostas para Gentileza – ainda – faz bem

  1. Kathia disse:

    Puxa, falou tudo. Pessoas assim estão cada vez mais raras…
    Adorei o texto!
    Bj

  2. Jefferson Porto disse:

    Nossa o cara parece eu né Nity..??? shuahsausa… sou muito gentil, gentil e prestativo…

    bjaum… bem legal a escrita.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: