Desabafo de ninguém

De longe, trilhara mentalmente o pequeno futuro. Como caminhar e por onde passar. Não restara tempo para raciocinar. Direcionaria um olhar – a ele? Figurantes esbarravam, pessoas comuns irritavam, zumbiam em sua mente, empurrando-a para lá. Ao seu lado.

 

Quase um convite, um mergulho no profundo azul-oceano, seu olhar cobiçante e atento a seguiu. Mesmo que disfarçasse, que tentasse manter a naturalidade, ela titubeava. Vacilava. Nervosa, coração a sair pela garganta, folego sem folego. Encará-lo enquanto caminhava rapidamente, mesmo que parecesse em câmera lenta, seria fatal – tanto quanto irresistível.

 

Dono de uma hombridade indiscutível, seu caráter continuara inabalável. Ela não conseguia enxergar sequer um defeito. Nenhum lado obscuro. Também não conhecia forma alguma de aproximar-se. Tal qual um muro de Berlin, por mais que desejasse, não cairia sem esforço. Era preciso arriscar. Se um dia a coragem existira, naquele momento fazia-se ausente.

 

Tantas vezes conversaram, tantas ela desfalecera. A alma ia ao chão. Terminaram há tempos. “Não era para ser”, explicou-lhe certo dia. Mas, se não era para ser, por que existiu? Realmente existiu? Ela não sabia. Hora acredita, hora iludia-se.

 

01

Percebeu, enfim, que o tempo fora em vão. Um passado não vivido. Uma lembrança enganosa. Melancolia sem razão.

 

Não encarou-o, apenas passou. Ouviu parte da conversa – dele com os amigos. Mesmo não identificando palavra alguma, estremeceu. Deixe de ser besta! Sou uma sombra, um nada. Pensava.

 

Misturou-se a multidão anônima. Vidas opostas, ninguém preocupado com seus pensamentos. Era invisível à todos. E tornou-se para ele também. Preferia assim. Mais uma, das tantas mulheres que eram engolidas pelo caos urbano. Dentre pessoas, outra história de ex-amor escorria pelos trilhos do metrô. Sem que ninguém a socorresse. Ninguém se importava.

 

Talvez Marisa volte a nos prestigiar com os seus anseios. Talvez em outra terça, talvez em outro conto.

 

2 respostas para Desabafo de ninguém

  1. Kathia disse:

    Que bonito! Adorei!

  2. […] PS 2: Leia outro conto com o desabafo de Marina aqui. […]

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