O tempo é mais milagroso que o Cogumelo do Sol

o_tempo“E a única coisa que o Menino Maluquinho não conseguiu segurar foi o tempo”. Com essa frase, Ziraldo encerrou o primeiro livro que li. Naquela época, com 6 ou 7 anos, eu nem tinha ideia do que era o tempo. Se bem que até hoje não tenho.

Dizem que o melhor remédio é o tempo. Mais milagroso que Cogumelo do Sol, ele cura de coração partido a unha encravada. Mas requer paciência, algo que os seres humanos dispõem, porém, em quantidade limitadíssima.

Quando eu tinha uns 14, 15 anos, tinha muito medo de não “estar aproveitando”. Desculpem o gerundismo, mas preferi reproduzir na íntegra a forma como me alertavam. Minha mãe, minha tia e todos os outros com mais de 30 anos bem que tentaram me avisar: a melhor fase estava passando e eu deixava escapar das mãos…

Alguns anos se passaram. Eu, que não passava nenhuma base na unha, hoje não tiro o esmalte vermelho. O cabelo, que vivia preso num rabo-de-cavalo, hoje dificilmente vê um lacinho, grampo ou presilha. Fica solto mesmo, e tenho muita preguiça de prender. Confesso que ainda tenho um pouco de receio de usar um batom vermelho que ganhei, mas pretendo superar. Pode parecer uma besteira: fazer a unha, arrumar o cabelo… Mas não é. É um grande avanço para quem achava que unha vermelha era coisa de mulheres pouco ortodoxas.

Na minha humilde opinião, ao quebrar um pequeno preconceito – ou vergonha -, como pintar a unha de vermelho, é, de certa forma, libertar a alma.

Aos 16, eu era extremamente ‘vermelha’. Queria participar do grêmio, fazia manifestações, discutia filosofia. Meu desejo era salvar o mundo, mas o que eu não percebia era que eu precisava me salvar primeiro. Era uma adolescente cheia de complexos e medo. Medo de levar fora, medo de conversar e falar besteira, medo de andar sozinha na rua, medo de ter medo.

Hoje ainda sinto medo de várias coisas, que hoje considero importantes, como ficar sem emprego, não terminar a faculdade, etc. Talvez daqui a alguns anos eu tenha medo de não conseguir pagar as contas ou de me divorciar, mas aí já é pauta para outro texto.

Algumas vezes acho que minha tia tinha razão. Será que ela era infeliz aos 30 e queria me proteger do grande desastre que é ficar mais velha, ao dizer que eu não estava aproveitando a melhor fase da minha vida? Engraçado, mesmo estando numa fase não tão boa da vida, pelo menos para a minha tia balzaquiana, eu me sinto uma pessoa muito melhor agora.

"... E o Menino Maluquinho cresceu"

"... E o Menino Maluquinho cresceu"

3 respostas para O tempo é mais milagroso que o Cogumelo do Sol

  1. Nitya Rios disse:

    Sempre achei fútil garotas que viviam falando de meninos e pintavam as unhas como “gente grande”. Digo que aproveitei minha infância, parecia mais um menininho correndo atrás de bola. Nunca briquei com boneca. E, ainda assim, não sei se vivi tudo que poderia ter vivido. Mas sei que estavamos evoluinho minha amiga.Texto maravilhoso! Parabéns.

    • Kathia disse:

      É isso mesmo que quis dizer, não sei se vivi tudo. Mas relaxa, ainda temos muito o que viver!
      Eu era bem moleca também, mas ao mesmo tempo, queria me sentir melhor comigo mesma, fazer a unha, cuidar do cabelo, mas tinha medo do que os outros iriam pensar de mim. E pelo menos disso eu me livrei.
      Obrigada por ler!
      Bjs

  2. Laurye Borim disse:

    Adorei o texto e tudo que vc escreveu é bem verdade…
    Essa semana mesmo passei um esmalte vermelho e as vezes me pego olhando pras unhas e pensando ” sera q eu to parecendo uma bisca??” rs
    mas ele continua aqui… vermelho e forte, na intenção de libertar a alma. rs
    bjo

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