O professor de geografia

Marcos era um professor excêntrico. Costumava usar calça larga, geralmente sem cinto. Carregava uma bolsa preta de couro surrada e uma garrafa de água mineral.

Professor de geografia frustrado. Era assim que Marcos se definia. Declarava que poderia ter seguido o conselho de sua avó, e se formado em direito. Culpava os alunos inquietos por seus cabelos brancos.

Frustrado ou não, Marcos se lamentava durante todos os dias letivos por não ter cursado direito. “Eu podia ser uma pessoa muito melhor agora, defender causas. Muito melhor do que ficar aqui, tentando ensinar algo de útil para vocês, seus idiotas”, dizia ele em quase todas as aulas.

O professor acreditava que podia fazer a diferença. As aulas de geografia eram sempre dominadas por assuntos políticos, muitas vezes incompreendidos pelos pré-adolescentes de 13 anos da escola.

Nos ataques contra as torres gêmeas, em 11 de setembro, Marcos disse em tom profético: “vocês estão ferrados. A casa caiu. Demorou , mas caiu. Ainda bem que já estou velho e não vou presenciar mais as desgraças deste mundo”. Todos os alunos ficaram assustados. Seria o fim da geração que viu o império norte-americano se tornar vulnerável, enquanto ouvia Backstreet Boys e Spice Girls?

O professor de geografia, além de ser conhecido por erguer a calça larga sem cinto durante as aulas, era famoso também por seu pessimismo. Quase diariamente, dizia que seus alunos seriam garis. “Vocês vão se tornar garis! Isso mesmo, vão varrer rua, é o que vocês farão melhor”, dizia.

Enquanto coçava o queixo dominado pela barba branca e ajeitava as calças, Marcos parou a aula de geografia da sétima série do ensino fundamental para dizer que ia se aposentar. Alguns comemoraram com festa, outros disseram que a escola perderia seu educador de maior senso crítico.

De chinelo de couro, bolsa preta e uma garrafa de água na mão, o professor deixou a escola. Seus olhos verdes cansados iriam finalmente para o lugar onde ele sempre quis. Comprou passagens para a Jamaica, onde poderia finalmente “curtir a vida ao som de Bob Marley, bem longe de vocês, futuros garis”.

Obs.: baseado em fatos reais. O nome do professor foi trocado para ele não descobrir que uma ex-aluna dele sabe mexer no computador. 😉

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3 Responses to O professor de geografia

  1. Nitya Rios disse:

    Ma-ra-vi-lho-so! Parabéns Kathia, um ótimo texto! E que professor mais esquisito esse.rs

  2. Kathia disse:

    Nyyyyyyyy muito obrigada! Saiba q essa história é real! rsrsrs
    bjs querida!

  3. ale rolim disse:

    xou de bola, bem interessante.

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