O Bichano Milili

Quando nada ainda me preocupava, a não ser a brincadeira da tarde ou o dever da escola, tive um gato. De nome um tanto quanto excêntrico, Milili fora dado de presente a minha irmã, como uma lembrança dos tempos que deixávamos para trás, na época em que resolvemos trocar de ares e ir morar com nossa mãe – acontece com crianças que têm os pais separados.

Milili, com poucos meses de idade, talvez um, lançou um receio a aceitação de mamãe. – Ela tem rinite! Dizia mamãe gato-siamesquestionando meu pai. Por fim, Milili integrou a família, rumo a delicada cidade chamada Araçatuba (interior de São Paulo).

Um breve histórico. Em dois anos vivemos nesta pequena cidade, descobrimos que a simplicidade pode proporcionar uma vida extremamente feliz. Era tempo de clubes, piscinas, churrascos, praias artificiais, sol, brincadeiras. Tempo de inocência. De risadas nos quartos, de jogar vôlei com os pés descalços no asfalto quente. Pastel na feira, missa ao domingo, viagens nos feriados.

Mas também foi um tempo difícil, de perdas, de saudade, de lágrimas. Deixar suas raízes à mingua não é coisa fácil de se fazer. Ninguém deixa o lar vivido há anos com um sorriso no rosto. Talvez signifique excesso de amor, daqueles amores que transbordam o coração. Amor pela cidade, pela família que nela reside, pelos amigos conquistados. Mas, diria que o ponto principal de tal saudade define-se na falta que uma pessoa fazia. Meu irmão ficara em nossa cidade natal. Por escolha própria. As escolhas, por muitas vezes, doem. Aí entra o pequeno felino siamês.

Meu irmão visitava-nos somente nas férias – e vice-versa. De espírito alegre, alma extremamente boa, nosso irmão mais velho sempre fazia os problemas sumirem. Era um dom, pensava eu.

Nas tardes pós escola, Milili tornou-se a diversão minha e de minha irmã. Dávamos banho, escovávamos o pelo, preparávamos a comida, molhávamos o pão no leite. Eram tardes maravilhosas, no clima quente e envolvente da cidade Araçatubense. Seu miado ecoava na casa. Nos deliciávamos com suas confusões, como quando achamos que o bichinho fugira. No cair da noite, ao ir dormir, mamãe escutou um ronronado em seu armário. O bichano dormia tranquilo em meio as roupas de mamãe, certamente à horas.

O gatinho fora roubado uma vez. A busca por seu paradeiro foi incessante, e obtivemos resultado. Milili havia sido “furtado” por uma criança que passara em frente de casa, ao sair da creche. O gatinho voltou para casa. A criança chorou. Nós também.

Milili morreu por causas desconhecidas, com dois anos de idade. Talvez fora envenenado, pois quando atingiu a adolescência, passava noites fora, na farra, como narrava mamãe.  Pouco depois, voltamos para nossa cidade natal. Me restou uma cicatriz de um arranhado profundo,que cruza minha mão esquerda, e lembranças maravilhosas de como um felino ajudou-me a amenizar a saudade sentida.

6 respostas para O Bichano Milili

  1. Kathia disse:

    ADOREI! Escritora Nitya!!!

  2. Vitor disse:

    Interessante o significado do gato na sua história…pena ele ter morrido tão jovem….rsrs

    Beijos

  3. Samantha disse:

    Você usa muito verbos no pretérito mais-que-perfeito simples, tipo “Fora”, “Fugira”, e etc.

    • Nitya Rios disse:

      Tipo? Bom, na verdade não é um ‘tipo’, são conjuções adverbiais das quais eu gosto muito. Entendera? rs

  4. Elias disse:

    Gostei muito do seu relato, esse animais fazem muito por nos mesmo, dando alegrias e tudo que há no coraçãozinho deles, pena que nem todos sabem amar estes seres. Tenho uma gatinha igualzinha a da foto chamada Lilica, encontrei na rua (estava abandonada) Ela é a alegria da casa!!! Desejo tudo de bom a você e a todos que amam estes seres especiais.

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