Passos

Autor: Felipe Gil

Texto gentilmente cedido pelo talentonso historiador e estoriador colega de outrora.

 

Duzentos e noventa e oito, duzentos e noventa e nove, ufa, trezentos.

Não é sempre que, aos seis-anos-quase-sete, tem-se uma sensação tão completa de dever cumprido. Algo que pouco mais de meia hora andando na areia haviam causado nesta menina. E olha que foram necessárias várias tentativas antes de conseguir manter a conta por tanto tempo. Algumas conchinhas eram tão bonitas. Algumas, ela sabia, eram bem feias, mas seria muita injustiça abandoná-las sozinhas na areia por causa de um detalhe bobo desses.

Quase ao mesmo instante ela percebeu. Tivesse avistado aquela geléia branca alguns metros atrás e lá se iam quase trezentos passos cientificamente contados. Ciente da sorte que tivera, e ainda gozando de ter comprido seu dever mais importante até então, a menina pode se dedicar inteiramente aquela descoberta.

Isso sim, devia valer até algum prêmio. Poucas pessoas deviam ter encontrado geléia na praia. Caso contrário, ela ia ficar sabendo. Sua mãe já teria dito. Pelo menos ela nunca viu pra vender nos carrinhos. E ela sempre reparava em tudo.

Parecia feito de luz. Mas um luz mole. Achopés que era uma luz meio águatica – e sorriu da melhor definição que ela, ou qualquer um, poderia fazer da geléia. Por uns segundos ficou quase decepcionada por não haver ninguém no espaço de um grito para dividir aquele achado, sem dúvida, dos mais importantes de todo o universo. Mas que logo foi substituída por uma felicidade um pouco que egoísta. Aquilo era só dela. Uma luz feita de água. Com certeza isso devia servir pra muita coisa.

E era a coisa mais bonita que ela já tinha visto na vida. Quase como quando sua mãe, que estava sempre ocupada, começava a rir muito. Se era então por algo que a menina havia dito, só isso até agora se comparava com aquela coisa de luz mole.

Então um espanto maior, a geléia se movia. E não eram as ondas, agora ela tinha certeza. E, para ter certeza, ainda esperou mais um pouquinho…

_Alá, ela mexe – constatou deslumbrada para si mesma.

Como se não bastasse a luz ser de água, ela se mexia também.

_Tá viva!!

Mas espera um pouco… se é uma luz de água, e está viva… de água… ela vai morrer na areia! E não conseguiu se decidir se estudava mais ou se salvava a geléia.

_Aiaiai.

Decidiu-se pelo sacrifício. Era melhor perder a luz que deixar ela apagar. Também, de que ia servir uma luz apagada? E foi salvar aquele negócio, pronta pra devolvê-lo ao mar. Se ele morasse no céu, do mar pelo menos ele ia saber chegar lá.

Mas alguma coisa parece que entrou pelo seus dedos, e correu até o braço, antes que ela pudesse começar a chorar. Tava doendo. Tava doendo muito. E chorou com muita força. Ela sabia que a mãe não ia ouvir. Ninguém podia ouvir. Pensando nisso, o choro foi sendo engolido. Será que era isso que a mãe falava que era engolir o choro?

E aquela droga ainda estava lá. Se ela não queria ajuda – e a menina bem sabia que aquela coisa precisava – azar o dela, ia morrer de secura na areia. Ela nem ligava. E ficou olhando pra geléia. E tentou pensar em alguma coisa pra olhar enquanto a geléia morria.

Quem ela queria enganar? Ela nunca ia conseguir deixar a aquela luz morrer. E se ela machucasse porque tava morrendo? E ela era bonita demais. Era triste de tanto que era bonita. A luz tinha de ser salva. Mas também não podia doer. Doía muito, e mesmo que ela quisesse ela não ia conseguir.

Com uma pressa que pouco combinava com sua sede de ver, correu sem saber o que queria. Um galho! Isso tem que servir. E voltou-se para sua amiga para levá-la para casa. Um pouquinho pra cá, segura daqui.  Mas a luz era mesmo muito mole.

_Como que eu vou…ai não… – Aquele frio na barriga de novo. Aquele quando tinha tarefa e ela não fazia. Só que dessa vez mais forte. O que tinha que salvar a luz atravessou toda sua moleza. O bichinho morreu se mexendo por mais tempo que um bicho morrendo devia se mexer. Mas ela sabia, era só uma questão de tempo. E era tudo culpa dela.

Pela primeira vez não teve vontade de se explicar. Nem de procurar algum motivo que removesse dela aquele peso. Bem mais pesado que os outros que ela havia sentido. Era culpa dela, e ela sabia. Nenhum carinho, nem uma palavra, nem sua mãe poderiam tirar aquilo.

Ela então entendeu porque algumas coisas eram só pra quando for mais velha. E envelheceu.

Nada mais a ser feito.

Trezentos e um, trezentos e dois, trezentos e…

Uma resposta para Passos

  1. Felipe disse:

    Obrigado novamente pelo texto publicado (o único, nem sei se te falei..) e principalmente pelo estoriador.
    Gostei um monte.

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