Entre calçadas

 A multidão de prédios vai me engolir neste desespero do dia a dia. Em meio ao emaranhado de pessoas, sinto-me só. E aquele sentimento me vem. Aperta o peito, como mãos cumprimentando fortemente o coração – um aperto de mãos vingativo. Ando pela Avenida Paulista.

Gravatas apressadas, mãos levando unhas pintadas num rubro-cheguei a balançarem com insistência junto aos corpos que andam. Fumaça de cigarros embolam o ar. Gás carbônico a sair dos motores, fresquinho… acabou de queimar.

É manhã de verão. Nada de areia ou banhos de sol. A brisa [aqui] é urbana. Cheiro de trânsito faz bem aos atrasados. Na verdade, é um vício. E como todo bom vício, deve ser mantido com certa periodicidade, um engarrafamento aqui, um acidente acolá. Vamos nos informando pelas bancas, deixadas para trás sem um adeus.

Indiferença demais. Tantos nos atropelam receosos com a enfadonha frase matinal de seu chefe que – a certo ponto – olho-me no espelho para comprovar que sou real. Não vejo nada. E ninguém vê também. E isso é normal, é tão normal que ele fez a última refeição há três dias, e você não sabe. Ela, a de cabelo curto, brigou com o noivo, já saiu com o vizinho e não se lembra onde deixou o isqueiro da sorte. A garota de botas pretas está com notas ruins em duas matérias na faculdade, mas ela em liga. Ele assumiu que é gay, está procurando um apartamento e se sente horrível com esta calça jeans. O cachorro não é da advogada que brinca com ele, é do senhor de suéter verde que leva o animal todos os dias para passear, enquanto a esposa faz quimioterapia. Recebendo trocado nas ruas, o atual moto-boy comprou seu veículo. A gola engomada do bancário foi passada pela empregada e arrumada no corpo pela amante carinhosa. Pequena e bonita, ela estuda no período da manhã porque gosta de tempo livre à tarde.

O destino final é só. O caminho também. Mas, prefiro o caminho. Nele, podemos respirar desejos, aspirar sonhos, sentir medos, mentiras, realidades.

As calçadas estão fardas das pessoas que a pisam pra cá e para lá. A manhã é curta, o tempo vai embora. Resta-nos o esperar do amanhecer. Espero mais uma caminhada, mais uma solidão, mais um ir e vir constante de vidas a me frescar o esqueleto.Caminho pelo calçadão Paulista.

avenida_paulista

4 respostas para Entre calçadas

  1. Kathia disse:

    Muito real!!! Tava com saudade dos seus contos de terça… Sei como é a solidão em meio à multidão…
    Bjs!

  2. Felipe disse:

    Gostou de escrever, menina?

    Muito bonito.
    Mas você ja sabe.

  3. Chiu disse:

    Nitya … Volta para Roooooooooooça … essa mudança de cidade ta acabando !!!
    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

    Mandou bem meu anjo, escreveu muito bem !!!

  4. Gabriel disse:

    Nity!!

    Não tive mais noticias suas, sumiu do mapa?!rsrs por isso fui procurar de você e acabei encontrando este blog…. e esta sua postagem, que convenhamos, FICOU MUITO FODA!! haha

    estou com saudades, ve se nao esquece dos caipira de Jundiaí….rsrs Quando estiver escrevendo para o Estadão, ou então quando estive no Jornal Nacional, ve se cria uma matéria sobre a banda tb!
    haha

    zuera

    BEJAO ve se aparece

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