Este é o meu tempo

Um dia desses tive uma conversa com o tempo. Nada sério demais, perguntei apenas como estavam suas horas, seus minutos, seus segundos e milésimos de segundos. Achei-me então íntima demais para perguntar por que eles nunca paravam, nem para observar da maneira mais lenta possível a chuva que começava a cair ou a flor que acabara de morrer.

Nessa conversa, tentei entender por que as pessoas planejam tantas atividades, tantos sonhos, tantos planos… E por vezes ele não nos deixa cumprir. Tive um pingo de raiva quando pensei em esclarecer alguns minutos periféricos, que passavam com a pressa de um fugitivo quando queríamos que assumissem o modo slow, ou demoravam a chegar como uma joaninha a correr contra uma lebre.

Por que ele insistia em nos envelhecer, em arrancar do presente a alegria de viver e torná-lo em uma triste lembrança? Por que ele não voltava atrás nunca, não nos dava opção de escolha? Sei lá, que tal disponibilizar algum tipo de teste drive – a ideia não era de toda ruim, você testa o futuro, o passado e, se não gosta, modifica no presente. Simplesmente.

Enquanto eu gesticulava, questionava e franzia a sobrancelha, ele me observava calmo, como só quem é dono do seu próprio tempo poderia fazer. O pingo de raiva virou uma poça. Qual a justiça nisso? Escolher um caminho significa excluir outros tantos, e não há tempo para dúvidas. Nem para isso?

Onde foi parar os momentos com meu avô, a cantarolar pelas ruas do Jardim Rosaura? Cadê aquela época de doces, nuvens e lágrimas? Por que não tenho mais os dentes de leite e as sardas? Em que lugar deixei as brincadeiras, os personagens, as fantasias?

“Você levou!”, acusei-o. Levou a infância, a inocência, os gostos gostosos. Você que tirou de mim o cheiro de mãe, o mimo do avô, a conversa do pai. Por que me tiraste os risos dos irmãos, o arco-íris de chuva e sol, o calor das canções e as histórias? Que graça tem a realidade? Viver esse presente sem vida, sem razão?

Então me chacoalhei, com quem quer acalmar-se, e percebi que ele ainda me observava. Era sua vez de falar. Mas ele não falou. Era chegada a hora para responder, mas ele também não respondeu. Não falou, não sorriu, não perguntou, apenas me olhou. E eu entendi.

É certo que desejamos ter de volta os chamegos do tempo vivido, da escolha feita. Queremos ter de volta aquele tempo para fazermos nada, apenas o que der vontade. Mas, se ele não passasse, não saberíamos o significado nu e cru da palavra saudade.

O tempo passou. A saudade ficou. E eu…Bom, essa é outra história.

5 respostas para Este é o meu tempo

  1. Kathia disse:

    Que lindo!!! Adorei que voltou a postar.
    Beijo!

  2. Gostei!
    Auto-reflexão!

  3. Amanda Oliveira disse:

    óin, óin, óin… que fofo!
    Esse texto também ficará guardado em memória junto com suas célebres frases! =)

    Adorei!!!!
    Beijoka

  4. Kelly Andrade disse:

    Parabéns Nitya,
    Me inspiro em você..rsrs

    Super beijo – minha “eterna” coordenadora!!!!!

  5. grazi shimizu disse:

    nossa! gostei bastante, bastante mesmo do texto!🙂

    o subjetivo é tão mais agradável… =)

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