Este é o meu tempo

23/06/2010

Um dia desses tive uma conversa com o tempo. Nada sério demais, perguntei apenas como estavam suas horas, seus minutos, seus segundos e milésimos de segundos. Achei-me então íntima demais para perguntar por que eles nunca paravam, nem para observar da maneira mais lenta possível a chuva que começava a cair ou a flor que acabara de morrer.

Nessa conversa, tentei entender por que as pessoas planejam tantas atividades, tantos sonhos, tantos planos… E por vezes ele não nos deixa cumprir. Tive um pingo de raiva quando pensei em esclarecer alguns minutos periféricos, que passavam com a pressa de um fugitivo quando queríamos que assumissem o modo slow, ou demoravam a chegar como uma joaninha a correr contra uma lebre.

Por que ele insistia em nos envelhecer, em arrancar do presente a alegria de viver e torná-lo em uma triste lembrança? Por que ele não voltava atrás nunca, não nos dava opção de escolha? Sei lá, que tal disponibilizar algum tipo de teste drive – a ideia não era de toda ruim, você testa o futuro, o passado e, se não gosta, modifica no presente. Simplesmente.

Enquanto eu gesticulava, questionava e franzia a sobrancelha, ele me observava calmo, como só quem é dono do seu próprio tempo poderia fazer. O pingo de raiva virou uma poça. Qual a justiça nisso? Escolher um caminho significa excluir outros tantos, e não há tempo para dúvidas. Nem para isso?

Onde foi parar os momentos com meu avô, a cantarolar pelas ruas do Jardim Rosaura? Cadê aquela época de doces, nuvens e lágrimas? Por que não tenho mais os dentes de leite e as sardas? Em que lugar deixei as brincadeiras, os personagens, as fantasias?

“Você levou!”, acusei-o. Levou a infância, a inocência, os gostos gostosos. Você que tirou de mim o cheiro de mãe, o mimo do avô, a conversa do pai. Por que me tiraste os risos dos irmãos, o arco-íris de chuva e sol, o calor das canções e as histórias? Que graça tem a realidade? Viver esse presente sem vida, sem razão?

Então me chacoalhei, com quem quer acalmar-se, e percebi que ele ainda me observava. Era sua vez de falar. Mas ele não falou. Era chegada a hora para responder, mas ele também não respondeu. Não falou, não sorriu, não perguntou, apenas me olhou. E eu entendi.

É certo que desejamos ter de volta os chamegos do tempo vivido, da escolha feita. Queremos ter de volta aquele tempo para fazermos nada, apenas o que der vontade. Mas, se ele não passasse, não saberíamos o significado nu e cru da palavra saudade.

O tempo passou. A saudade ficou. E eu…Bom, essa é outra história.

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Entre calçadas

10/11/2009

 A multidão de prédios vai me engolir neste desespero do dia a dia. Em meio ao emaranhado de pessoas, sinto-me só. E aquele sentimento me vem. Aperta o peito, como mãos cumprimentando fortemente o coração – um aperto de mãos vingativo. Ando pela Avenida Paulista.

Gravatas apressadas, mãos levando unhas pintadas num rubro-cheguei a balançarem com insistência junto aos corpos que andam. Fumaça de cigarros embolam o ar. Gás carbônico a sair dos motores, fresquinho… acabou de queimar.

É manhã de verão. Nada de areia ou banhos de sol. A brisa [aqui] é urbana. Cheiro de trânsito faz bem aos atrasados. Na verdade, é um vício. E como todo bom vício, deve ser mantido com certa periodicidade, um engarrafamento aqui, um acidente acolá. Vamos nos informando pelas bancas, deixadas para trás sem um adeus.

Indiferença demais. Tantos nos atropelam receosos com a enfadonha frase matinal de seu chefe que – a certo ponto – olho-me no espelho para comprovar que sou real. Não vejo nada. E ninguém vê também. E isso é normal, é tão normal que ele fez a última refeição há três dias, e você não sabe. Ela, a de cabelo curto, brigou com o noivo, já saiu com o vizinho e não se lembra onde deixou o isqueiro da sorte. A garota de botas pretas está com notas ruins em duas matérias na faculdade, mas ela em liga. Ele assumiu que é gay, está procurando um apartamento e se sente horrível com esta calça jeans. O cachorro não é da advogada que brinca com ele, é do senhor de suéter verde que leva o animal todos os dias para passear, enquanto a esposa faz quimioterapia. Recebendo trocado nas ruas, o atual moto-boy comprou seu veículo. A gola engomada do bancário foi passada pela empregada e arrumada no corpo pela amante carinhosa. Pequena e bonita, ela estuda no período da manhã porque gosta de tempo livre à tarde.

O destino final é só. O caminho também. Mas, prefiro o caminho. Nele, podemos respirar desejos, aspirar sonhos, sentir medos, mentiras, realidades.

As calçadas estão fardas das pessoas que a pisam pra cá e para lá. A manhã é curta, o tempo vai embora. Resta-nos o esperar do amanhecer. Espero mais uma caminhada, mais uma solidão, mais um ir e vir constante de vidas a me frescar o esqueleto.Caminho pelo calçadão Paulista.

avenida_paulista


Amigos, amigos

22/09/2009

amigos

Ter amigos. Aquela alegria contagiante, a risada sem motivo certo, o companheirismo nas descobertas da vida. Até descobrir-se que a fase adulta chegou e, com ela, responsabilidades e dificuldades. Caminhos a serem trilhados, escolhas a serem feitas. “Tudo bem, todo mundo passa por isso”, pensei eu em certa idade. Só não pensei quão importante eram os momentos que vivia, tanto quanto os que deixava de viver ao lado de meus amigos.

Entre faculdade, trabalho, mudanças, festas, enterros… O tempo passa, não volta atrás. E não é só você que mudou de cidade ou foi atrás de seu sonho. Seu amigo também tomou seu rumo. Pode ter ido para a Costa Rica a procura de oportunidades, ou ter ficado na mesma cidade em que nasceram para fazer aula de circo e realizar um sonho perto da família. Ele pode ir e voltar toda a noite para a mesma cidade que você está agora, mas não se veem porque cursam faculdades diferentes. Aquela amiga da infância pode estar trabalhando como cobradora de pedágios nas rodovias, enquanto você dorme se preparando para o dia que está por vir. Talvez sua amiga esteja assistindo luta livre com o namorado pela TV, enquanto você passa o sábado a noite com sua mãe. Pode ser que aquele casal de amigos estejam no cinema no momento em que se prepara para aquela reunião.

Não importa o que estejam fazendo. Todos estão atrás de seus sonhos, suas realizações profissionais e pessoais. É o ciclo da vida. Temos que seguir, mesmo que sozinhos. Mas a amizade, aquela verdadeira, não precisa de presença para que continue viva. É a lembrança, o carinho estimado por tempos – seja este tempo curto ou longo, é o querer, a saudade.

Amizade é deixar para trás os momentos ruins, as brigas, os desentendimentos mesquinhos. É reviver sempre as cenas engraçadas, as falas inesperadas. É dividir os segredos, dar idéias, opiniões. É apoiar sem questionar. É dar sem pedir nada em troca. É amar como se ama um irmão de sangue. É conhecer preferências, é ter detalhes da pessoa exclusivos para você. É saber que mesmo quando o céu está para cair em sua cabeça e nada mais dará certo, tem alguém ali, de pom-pons e apito torcendo forte para sua vitória. É sentir a noite que alguém reza por ti. É saber que mesmo do outro lado do oceano, o amigo não a esquecerá. É ter em seu armário roupas da amiga querida, e vice-versa. É imaginar a reação da pessoa com notícias boas por vir. É ver que a sua presença a faz bem, e isso já bastaria. Ter um amigo ou amiga em que confiar é pedir desculpas sem medo, é aprender sem ensinar.

De amigos em amigos, vínculos eternos são estabelecidos. Orgulho é ver as fotos, as recordações e ter a certeza que um dia poderei dizer: “olha, são meus amigos”. E, caso não tenhamos mais nos reencontrado poderei afirmar: “eles fazem parte da minha vida”.

Os amigos são os irmãos que podemos escolher.

Ter amigos. Aquela alegria contagiante, a risada sem motivo certo, o companheirismo nas descobertas da vida. Até descobrir-se que a fase adulta chegou e, com ela, responsabilidades e dificuldades. Caminhos a serem trilhados, escolhas a serem feitas. “Tudo bem, todo mundo passa por isso”, pensei eu em certa idade. Só não pensei quão importante eram os momentos que vivia, tanto quanto os que deixava de viver ao lado de meus amigos.

Entre faculdade, trabalho, mudanças, festas, enterros… O tempo passa, não volta atrás. E não é só você que mudou de cidade ou foi atrás de seu sonho. Seu amigo também tomou seu rumo. Pode ter ido para a Costa Rica a procura de oportunidades, ou ter ficado na mesma cidade em que nasceram para fazer aula de circo e realizar um sonho perto da família. Ele pode ir e voltar toda a noite para a mesma cidade que você está agora, mas não se veem porque cursam faculdades diferentes. Aquela amiga da infância pode estar trabalhando como cobradora de pedágios nas rodovias, enquanto você dorme se preparando para o dia que está por vir. Talvez sua amiga esteja assistindo luta livre com o namorado pela TV, enquanto você passa o sábado a noite com sua mãe. Pode ser que aquele casal de amigos estejam no cinema no momento em que se prepara para aquela reunião.

Não importa o que estejam fazendo. Todos estão atrás de seus sonhos, suas realizações profissionais e pessoais. É o ciclo da vida. Temos que seguir, mesmo que sozinhos. Mas a amizade, aquela verdadeira, não precisa de presença para que continue viva. É a lembrança, o carinho estimado por tempos – seja este tempo curto ou longo, é o querer, a saudade.

Amizade é deixar para trás os momentos ruins, as brigas, os desentendimentos mesquinhos. É reviver sempre as cenas engraçadas, as falas inesperadas. É dividir os segredos, dar idéias, opiniões. É apoiar sem questionar. É dar sem pedir nada em troca. É amar como se ama um irmão de sangue. É conhecer preferências, é ter detalhes da pessoa exclusivos para você. É saber que mesmo quando o céu está para cair em sua cabeça e nada mais dará certo, tem alguém ali, de pom-pons e apito torcendo forte para sua vitória. É sentir a noite que alguém reza por ti. É saber que mesmo do outro lado do oceano, o amigo não a esquecerá. É ter em seu armário roupas da amiga querida, e vice-versa. É imaginar a reação da pessoa com notícias boas por vir. É ver que a sua presença a faz bem, e isso já bastaria. Ter um amigo ou amiga em que confiar é pedir desculpas sem medo, é aprender sem ensinar.

De amigos em amigos, vínculos eternos são estabelecidos. Orgulho é ver as fotos, as recordações e ter a certeza que um dia poderei dizer: “olha, são meus amigos”. E, caso não tenhamos mais nos reencontrado poderei afirmar: “eles fazem parte da minha vida”.

Os amigos são os irmãos que podemos escolher.


O Bichano Milili

15/09/2009

Quando nada ainda me preocupava, a não ser a brincadeira da tarde ou o dever da escola, tive um gato. De nome um tanto quanto excêntrico, Milili fora dado de presente a minha irmã, como uma lembrança dos tempos que deixávamos para trás, na época em que resolvemos trocar de ares e ir morar com nossa mãe – acontece com crianças que têm os pais separados.

Milili, com poucos meses de idade, talvez um, lançou um receio a aceitação de mamãe. – Ela tem rinite! Dizia mamãe gato-siamesquestionando meu pai. Por fim, Milili integrou a família, rumo a delicada cidade chamada Araçatuba (interior de São Paulo).

Um breve histórico. Em dois anos vivemos nesta pequena cidade, descobrimos que a simplicidade pode proporcionar uma vida extremamente feliz. Era tempo de clubes, piscinas, churrascos, praias artificiais, sol, brincadeiras. Tempo de inocência. De risadas nos quartos, de jogar vôlei com os pés descalços no asfalto quente. Pastel na feira, missa ao domingo, viagens nos feriados.

Mas também foi um tempo difícil, de perdas, de saudade, de lágrimas. Deixar suas raízes à mingua não é coisa fácil de se fazer. Ninguém deixa o lar vivido há anos com um sorriso no rosto. Talvez signifique excesso de amor, daqueles amores que transbordam o coração. Amor pela cidade, pela família que nela reside, pelos amigos conquistados. Mas, diria que o ponto principal de tal saudade define-se na falta que uma pessoa fazia. Meu irmão ficara em nossa cidade natal. Por escolha própria. As escolhas, por muitas vezes, doem. Aí entra o pequeno felino siamês.

Meu irmão visitava-nos somente nas férias – e vice-versa. De espírito alegre, alma extremamente boa, nosso irmão mais velho sempre fazia os problemas sumirem. Era um dom, pensava eu.

Nas tardes pós escola, Milili tornou-se a diversão minha e de minha irmã. Dávamos banho, escovávamos o pelo, preparávamos a comida, molhávamos o pão no leite. Eram tardes maravilhosas, no clima quente e envolvente da cidade Araçatubense. Seu miado ecoava na casa. Nos deliciávamos com suas confusões, como quando achamos que o bichinho fugira. No cair da noite, ao ir dormir, mamãe escutou um ronronado em seu armário. O bichano dormia tranquilo em meio as roupas de mamãe, certamente à horas.

O gatinho fora roubado uma vez. A busca por seu paradeiro foi incessante, e obtivemos resultado. Milili havia sido “furtado” por uma criança que passara em frente de casa, ao sair da creche. O gatinho voltou para casa. A criança chorou. Nós também.

Milili morreu por causas desconhecidas, com dois anos de idade. Talvez fora envenenado, pois quando atingiu a adolescência, passava noites fora, na farra, como narrava mamãe.  Pouco depois, voltamos para nossa cidade natal. Me restou uma cicatriz de um arranhado profundo,que cruza minha mão esquerda, e lembranças maravilhosas de como um felino ajudou-me a amenizar a saudade sentida.


Crônica do Amor

28/07/2009

Não, eu não verifiquei se esta crônica é de autoria de Arnaldo Jabor ou um autor desconhecido. Mas, verifiquei que se trata de uma delicadeza sem igual.

Por motivos irrelevantes e particulares, posto hoje, no lugar de meus contos de terça, uma crônica singular, melosa, mas ávida.

Crônica do Amor
Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta.

O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar.

Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais.

Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.

Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera.

Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco.

Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina Natal e ela detesta o Ano Novo, nem no
ódio vocês combinam. Então?

Então, que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante do que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome.

Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário. Ele não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro, e é meio galinha. Ele não tem a
menor vocação para príncipe encantado e ainda assim você não consegue despachá-lo.

Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita na boca, adora animais e escreve poemas. Por que você ama
este cara?

Não pergunte pra mim; você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem seu valor.

É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucura
por computador e seu fettucine ao pesto é imbatível.

Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com um currículo desse, criatura, por que está sem um amor?

Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados.

Não funciona assim.

Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível.

Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó!

Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é! Pense nisso. Pedir é a maneira mais eficaz de merecer. É a contingência maior de quem precisa.


Desvendar a morte

21/07/2009

O coveiro que me desculpe, mas a morte é idiota. morteNão que nunca tenha tido vontade de morrer. Inúmeras vezes tal idéia perturba a mente, treme a alma. Vontade é vontade até alguém corajoso demais – ou burro demais – a matar. Matar mesmo, tirar a vontade do desejo e passá-la a ação. Suicídio.

A estes sim devo respeito. Onde encontrar forças para adiantar aquela única certeza que todo ser humano tem? Ela vai chegar. Sorrateira, feroz, imapactante, inesperada. Ela chega e ponto. Acabou. Não se esquenta mais o leite pela manhã, nem veste a roupa guardada no armário. Não se vai ao trabalho, tampouco volta dele. Não mais importa estar atualizado, estudar, assistir filmes, comer, beber, respirar… Acabou toda a sua [con]vivência.

E a morte parte, flutua por entre os vivos. Escolhe seus acompanhantes; diverte-se a deixar dúvidas… Qual a verdadeira razão de viver? Por que se preocupar com sentimentos, rompimentos, saudades, se um dia – perto ou longe – a morte chega?!

Nos momentos estúpidos, queremos que tudo acabe logo, que ela venha e nos mostre o que está por trás de tudo isto, desta vida insana à qual batalhamos para sobreviver. Mas ela não vem. Não quando queremos. Se esperarmos, talvez ela não venha mesmo. A morte deve rir de nossos pensamentos à noite. E sugar nossos sonhos pela manhã.

Enquanto ela apenas me visita, e não me chama para acompanhá-la, vivo. Descubro lágrimas válidas e tento passar despercebida por ela. Até que ela me encontre para, novamente, batermos um papo. Até um dia, batermos as botas.

Creio que por fim descobrirei se tudo feito ao fervor da vida era o que realmente valia a morte.


Acasos de Marina

15/07/2009

Dentre algumas desventuras memoráveis, Marina julga particularmente esta como essencial ao aprimoramento de sua filosofia.

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"...era cedo ainda quando..."

Era cedo ainda quando nossa protagonista saiu pela capital paulista com sua amiga loira, a entrar em apartamentos desconhecidos na vã ilusão de [nestes] encontrar o mesmo aconchego familiar, tão aguçado na cidade onde nascera – lá para o interior de São Paulo.

Não sabia ao certo o que mais lhe chocava. A indiferença diferente dos anfitriões, ou existirem anfitriões que se sujeitavam a tais situações, como alugar um quarto do seu imóvel e alocar um estranho em sua rotina.

Marina não sentiu medo, tampouco a amiga loira. Marina sentiu pena. Mas não queria sentir pena. A pena é algo tão horrendo. Tem-se pena de um cachorro a ladrar de fome, ou de uma criança a vender guloseimas no semáforo.  Então por que sentiu pena dos locatários? Algo como perda, solidão, dificuldade, talvez conclusões parecidas levavam Marina à pena divina.

idosa[1]

"...perceber que milhares de idosos anônimos..."

Triste demais perceber que milhares de idosos anônimos se veem obrigados a alugar algo tão pessoal. É como alugar sua liberdade num único valor, incluso água, luz e gás. Senhoras gentis, carentes de atenção – ou de netos. Sem saber os motivos aos quais os donos dos imóveis foram sujeitos, Marina apenas sorriu e desejou que a solidão não existisse. Não a eles. Nossa garota ainda não alugou nada, ainda não se estabeleceu. Sabemos apenas que ela já orou por dias prósperos aos anfitriões.

PS 1: O Conto ainda é de terça, pelo menos fora escrito na terça…Por motivos diversos e insignificantes aos leitores, postamos quarta o conto que ainda é de terça.

PS 2: Leia outro conto com o desabafo de Marina aqui.